Desgastado, Bolsonaro usa TV pública e rádios regionais para propagar discurso governista

 

No momento mais difícil do mandato, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desencadeou nos últimos dias uma nova estratégia de comunicação, menos dependente das redes sociais e voltada a dar mais capilaridade ao discurso governista.

Desde que deixou no domingo (18) o Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde se tratou de uma obstrução intestinal, o presidente concedeu cinco entrevistas. Uma à TV Brasil, emissora do governo federal, e quatro a rádios —uma delas ao programa Voz do Brasil, também estatal.

Em geral, as entrevistas tiveram perguntas pouco críticas e um ambiente que deixou o mandatário confortável para defender —sem questionamentos— pautas caras ao bolsonarismo, como o chamado tratamento precoce contra a Covid e a suposta falta de segurança das urnas eletrônicas.

​As conversas com as rádios deram ainda a Bolsonaro a oportunidade de divulgar obras do governo nos locais onde as emissoras estão localizadas, em um esforço de difusão de notícias positivas pelo país.

O presidente escolheu a TV Brasil para iniciar a nova rodada de entrevistas.

Na noite de segunda-feira (19), ele aproveitou a conversa com a emissora para anunciar sua intenção de vetar o fundão eleitoral de R$ 5,7 bilhões aprovado pelo Congresso.

A entrevista, sem contrapontos, ainda deu ao presidente a oportunidade de criticar governadores e ressaltar as transferências feitas pela União a estados para o combate da pandemia da Covid-19.

Em uma emissora oficial, o presidente não se deparou com questionamentos incômodos ou com perguntas sobre as denúncias de irregularidades que têm surgido na CPI da Covid.

Com o avanço das investigações, o presidente se vê envolvido em uma crise política. A popularidade do mandatário tem caído em recentes pesquisas de opinião pública, como em levantamento Datafolha.

Em determinado momento, a entrevistadora lhe perguntou sobre o que ele vinha percebendo no “contato mais direto com a população”.

“Só quem está no meio do povo e sabe o que ele sente e entende as suas necessidades”, respondeu Bolsonaro.

No dia seguinte, o presidente inaugurou uma sequência de entrevistas a rádios. Na manhã de terça-feira (20), ele falou com a rádio Itatiaia, com sede em Belo Horizonte.

Além de reafirmar o veto ao fundão, Bolsonaro disse que o ministro da Economia, Paulo Guedes, exagerou na elaboração do projeto da reforma tributária. Está em debate no Congresso mudanças na taxação do IR (Imposto de Renda) e dividendos.

Bolsonaro também divulgou na entrevista a realização de obras em Minas Gerais, como a duplicação da BR-381. “É uma obra de duplicação de Belo Horizonte a Governadores Valadares. Vai ajudar em muito aí a logística de Minas Gerais.”

O modelo foi repetido em outras entrevistas dadas a rádios ao longo da semana: a mistura de temas de repercussão nacional, como a reforma ministerial, com notícias sobre as localidades das emissoras.

Na noite de terça, ele apareceu na Voz do Brasil sob a justificativa de comemorar os 86 anos do programa. “Temos dificuldades com parte da grande mídia, temos dificuldades com uma CPI que está funcionando no Parlamento”, reclamou.

“O desgaste existe, mas temos a consciência, a tranquilidade que venceremos esta fase também”, afirmou o presidente.

Nesta quinta-feira (22), por exemplo, Bolsonaro foi entrevistado pela rádio Banda B, que alcança Curitiba e região metropolitana.

Na ocasião, ao ser questionado sobre seu relacionamento com o governador Ratinho Júnior (PSD), ele tratou dos investimentos de Itaipu Binacional no estado.

“O Ratinho está feliz com mais duas pontes com o Paraguai. Uma está chegando a 60%. Ampliamos a pista [do aeroporto] de Foz do Iguaçu, está na iminência de poder aceitar pousos internacionais. Em torno de 40% das cidades do noroeste do Paraná recebem obras da Itaipu Binacional”, disse.

Recorrer a rádios regionais não é uma estratégia nova para presidentes.

O expediente foi amplamente usado por antecessores de Bolsonaro, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em razão da ampla capilaridade das emissoras.

O petista mantém a estratégia de dar entrevistas a rádios inclusive atualmente, como provável adversário de Bolsonaro nas eleições de 2022.

As últimas pesquisas de opinião apontam favoritismo de Lula. O ex-presidente ampliou vantagem nas intenções de voto para 2022 e cravou 58% a 31% no 2º turno, segundo pesquisa mais recente do Datafolha.

Bolsonaro considera parte da imprensa de alcance nacional adversária do governo. Tradicionalmente, ele concentra sua comunicação nas redes sociais —ao falar com as rádios, transmite ao vivo as conversas em suas plataformas.

Ele costuma fazer anúncios relevantes em seus perfis no Facebook e no Twitter. Divulga diariamente, por meio de um site bolsonarista, vídeos das conversas que mantém com apoiadores na frente do Palácio da Alvorada.

Além disso, o presidente realiza toda quinta-feira uma live transmitida nas mídias sociais.

Com a aproximação das eleições do ano que vem, conselheiros do mandatário avaliam que concentrar as aparições de Bolsonaro apenas nas redes sociais não é suficiente.

Eles afirmam que o cenário eleitoral de 2022 indica uma disputa difícil e que o presidente precisa intensificar a divulgação de ações do governo em meios que tenham alcance pelo interior e por cidades de pequeno e médio porte.